Assentando as fundações
repico hoje o post de ontem porque achei que há mais a ser explorado na discussão pelos emails que recebi. Comentava estes dias que me sinto conservador quando solitário e libertário quando feliz, se eu estou certo devo estar feliz hoje
“eleição, isto é, pelo índice de papeluchos que uma gente ignara chamada eleitores leva a um recipiente chamado urna num dia chamado eleição” (Monteiro Lobato, A Rosa Artificial)
Erro explicável mas não desculpável é esta nossa tendência a achar que política é aquela coisa que acontece na época da eleição, comício, horário eleitoral, panfletinhos, urna eletrônica. A cada dois anos passamos pelo ritual e ficamos em paz com a nossa consciência como se tivéssemos cumprido nosso dever cívico. Lavamos as mãos, entregamos o outro a responsabilidade de gerir nossos destinos e se ele não cumprir a sua parte nos vingamos com piadas e xingamentos.
Nada disto tem algo a ver com política. A política se faz no dia a dia, exigindo boas condições nos serviços públicos que usamos e fazendo o que podemos para melhorá-los, lendo as notícias e compartilhando-as, nos organizando e ajudando nossa comunidade a se organizar. Parece pouco, mas lá pelo mundo civilizado foi assim que as coisas começaram. Não se decidiu de um dia para outro: “vamos ter um parlamento”, “vamos fazer eleições periódicas”, foi da luta, da organização, das bases que surgiu todo o resto do sistema político.
Se os políticos nos parecem hoje algo como seres de outro mundo é que não houve uma evolução histórica que nos levou a este sistema político, só copiamos a cobertura do edifício, com suas piscinas e churrasqueiras, mas não tem estrutura ou alicerces que os sustentem. Quando surge algo na base em geral vem pelo processo inverso, de cima. Daí por exemplo toda esta prostituição em massa que ocorre no movimento popular e outras organizações na época de eleições, onde traficantes de escravos modernos vendem aqueles que deveria liderar no caminho da liberdade por um preço entre R$ 3 e R$ 10 por cabeça. Daí porque o “Não-Governamental” de tantas ONGs significa apenas que não tem de prestar contas, fazer concorrências ou contratar por concurso, mas muitas vezes não conseguem sobreviver sem verbas públicas – o que não é obrigatoriamente ruim – ou até em outros transformam-se em veículo para o desvio do dinheiro que deveria ir do governo para o povo – o que é mais do que terrível.
Falamos de sociedade civil porque é um termo bonito, simpático, elegante, moderno, mas entre ela e a mula-sem-cabeça penso que a última é mais real, ao menos mais presente no nosso imaginário e menos complexa de se entender, mesmo com aquela coisa de soltar fogo pelas ventas. O normal seria que a sociedade civil tivesse criado o Estado, mas nós ficamos passivamente esperando que o Estado nos crie, o que jamais irá acontecer.
Tocqueville disse que a sociedade civil organizada era a esperança de uma nova aristocracia sem os privilégios detestáveis, ou seja, aquela força que por deter poder e autoridade por si – não pelo rei – é capaz de se opor à tirania. Se ele tiver razão na análise que faz estamos condenados a esta nova tirania do Estado que tudo pode porque as pessoas são fracas e estão preocupadas demais consigo para estabelecer qualquer laço.
Quase todas as pessoas que me escreveram, as quais agradeço e só não nomeio porque não sei se todos gostariam, falaram da necessidade de investir em educação. Não sei ao certo qual a situação exata nos outros estados, mas em São Paulo todas as escolas tem conselhos nos quais pais e alunos tem assento e pela LDB acho que coisas semelhantes ocorrem nos demais lugares. Poucas escolas, mas justamente as melhores, tem Conselhos que realmente funcionam, que exercem aquela grande parcela de poder que lhes é dado. Talvez até seja dado este poder por se saber que não será usado, mas ele está lá, a espera de uma comunidade que não cruza os braços xingando o governo mas é capaz de agir localmente – aproveitando que estamos a uma semana do dia do meio ambiente roubo parte do lema – para construir um país melhor.
Temos a fixação do completo e do grandioso, vivemos da esperança que um dia vamos abrir as janelas pela amanhã e acordar em um país diferente porque fomos abençoados com um governante abençoado, com algum D. Sebastião enfim retornado. Tudo bobagem, um outro país só existirá se houver pessoas capazes de começar a construir lá embaixo nas fundações. Pode ate demorar, mas é o único jeito que realmente funciona, todo o resto é pajelança de marqueteiros.
