Dilemas da escola
Um dos assuntos sobre os quais mais tenho pensado, discutido e escrito profissionalmente é Educação. Não é um desafio fácil, ainda mais na situação em que me encontro hoje. Ainda que jamais tenha sido – intencionalmente pelo menos – irresponsável em escrever sobre o que não é plausível, hoje em dia estas minhas palavras tem responsabilidade adicional porque em certa medida implicam uma intenção de se colocar em prática, em médio prazo, tudo aquilo que é escrito.
A pressão acontece porque poucas questões se tornaram tão complexas quanto a educação. Em meio a pirotécnica de governos preocupados em dizer que fazem algo e corporativismo de entidades ligadas a educação mas em geral tendo o contracheque como preocupação principal há uma enorme preocupação de todos em fazer algo. O problema é que ninguém sabe exatamente o que precisa ser feito.
Um dos assuntos sobre os quais mais tenho pensado, discutido e escrito profissionalmente é Educação. Não é um desafio fácil, ainda mais na situação em que me encontro hoje. Ainda que jamais tenha sido – intencionalmente pelo menos – irresponsável em escrever sobre o que não é plausível, hoje em dia estas minhas palavras tem responsabilidade adicional porque em certa medida implicam uma intenção de se colocar em prática, em médio prazo, tudo aquilo que é escrito.
A pressão acontece porque poucas questões se tornaram tão complexas quanto a educação. Em meio a pirotécnica de governos preocupados em dizer que fazem algo e corporativismo de entidades ligadas a educação mas em geral tendo o contracheque como preocupação principal há uma enorme preocupação de todos em fazer algo. O problema é que ninguém sabe exatamente o que precisa ser feito.
Talvez decepcione aqueles que imaginam que todos os problemas do Brasil são produto das nossas mazelas nacionais, mas a crise da educação é internacional. Com certeza nossos problemas são agravados por falta de prioridade, visão e honestidade, pela imensa dimensão as tarefas educacionais inclusive causadas por decisões corretas – caso da universalização do ensino.
Mas mesmo fortificada pelas circunstâncias nacionais, a crise da educação é uma crise mundial e este elemento é um aspecto importante a se considerar, inclusive porque um dos eixos desta crise global é o corporativismo.
Um dos elementos que agravam meu conflito interno escrevendo sobre educação é o fato de jamais ter tido uma opinião muito positiva sobre ela. Como Herman Hesse sempre achei que o futuro é construído por aqueles que fogem da escola. Sempre achei que a cultura tem um poder transformador muito maior, mais efetivo e de melhor qualidade que a educação, quase sempre destinada apenas a reproduzir valores e saberes. Cito sempre a frase de Borges, na qual ele diz que uma biblioteca o educou muito mais que as escolas.
Como me agradam os paradoxos, diria que um dos motivos da crise da educação é justamente um dos resultados da crise da autoridade. Esta crise da autoridade, inspirada pela erosão geral de toda autoridade, fomentada por metodologias pretensamente experimentais e revolucionárias de ensino segundo as quais o professor não deve ensinar, amplificada pela dissolução dos laços familiares e desaparecimento a figura paterna que nos treina em lidar com a autoridade, enfim, de inúmeros elementos que retiram do processo educacional o seu centro, que deveria ser a figura do mestre.
Huxley destaca o papel da rígida formação escolar oferecida pelos jesuítas – em particular em Os demônios de Loudon, onde dedica a abertura do livro a esta questão – como central na história de vários personagens fictícios ou históricos – incluindo o rebelde e anti-clerical Voltaire.
Sair deste paradoxo não deixa de ser um exercício interessante. Chega a ser tentadora a solução fácil, segundo a qual há dois tipos de pessoas, aquelas que precisam da escola e aquelas para as quais ela é não só desnecessária mas prejudicial. Aos primeiros estaria destinado o papel de subalternos aos quais o aprendizado do conhecimento reproduzido nas escolas seria importante, às segundas, em muito menor número, as escolas seriam um entrave à livre expressão e uma amarra ao conhecimento.
Mas me causa repulsa esta solução fácil, a qual implica em negar a identidade fundamental dos seres humanos e a minha profunda crença de que todos podem desenvolver todo o seu potencial.
Mesmo admitindo-se a existência de homens-massa e homens-de-excelência, como quer Ortega Y Gasset, ainda assim é preciso verificar que ambos se beneficiam com a disciplina. Não é à toa que a imensa maioria dos grupos tradicionais tem uma imensa parte de seu processo de formação voltado a destacar a importância da disciplina. Nenhum buscador sincero jamais chegará a lugar algum enquanto não descobrir a importância da disciplina e do respeito à autoridade, mesmo que por conta de outras circunstâncias haverá o momento de romper com elas.
É a Ortega y Gasset que recorro para tentar compreender a importância da disciplina e da autoridade de um lado e entender as causas da crise da educação. Para o homem-massa toda disciplina, qualquer cosia que coloque limites a satisfação dos seus desejos é deplorável. Portanto é natural que ele busque o conhecimento pelos meios fáceis, porque qualquer esforço é para ele intolerável, assim como toda autoridade é insuportável, salvo quando coagido a obedecê-la.
Para agravar o paradoxo, é preciso reconhecer que os métodos considerados antiquados e autoritários de ensino geraram muito maiores intelectuais, escritores, pensadores e até educadores do que todas as modernas teorias, às quais tem levado o nível médio de conhecimento a graus muito baixos, salvo – talvez – quando se trata do conhecimento altamente especializado (o qual é também uma abdicação de esforçar-se em qualquer outro campo do conhecimento salvo aquele que se deseja).
Imaginando, então, que a autoridade do mestre é um aspecto importante na educação se chega a certo beco sem saída, porque autoridade não é algo que possa ser dada, ainda que em certas circunstâncias possa ser ensinada, desde que o aluno a deseje e se esforce para aprender, sobretudo, a auto-disciplina (porque ninguém terá autoridade sobre outro se não tiver em primeiro lugar sobre si mesmo).
Por mais que avalie que a questão a valorização do professor não é uma questão salarial e veja com antipatia a preocupação corporativa não posso deixar de concluir que não haverá saída da crise da educação sem esta recuperação dos salários dos professores. Um mau professor não ensinará melhor se ganhar mais, claro, mas havendo melhores salários jovens de talento, de excelência, voltarão a se interessar pela carreira e com o tempo ocuparão o espaço dos maus profissionais.
Hoje isto só acontece no caso extremamente excepcional de alguém cujo grau de abnegação seja tão grande, a vocação de professor seja tal, que mesmo em circunstâncias extremamente adversas resolva seguir a carreira do magistério. Toda a estrutura educacional conspira contra este infeliz sacerdote do conhecimento, voltada para reforçar e premiar a mediocridade – às vezes até o descaso. Mudar isto é um dos grandes desafios de quem deseja provocar a revolução da educação que se precisa.
Uma questão relacionada a esta demonstra que há esperanças e meios. Por mais que se fale na recuperação do status social do professor, estou absolutamente certo que junto à população, no imaginal e mesmo no imaginário da sociedade, o mestre jamais chegou a perder a autoridade social que teve em outros momentos. Salvo, talvez, para certos segmentos de jovens que idolatram o traficante, o jogador de futebol, a celebridade e outros personagens que se antepõem como modelo ao que detém o conhecimento – na maior parte da sociedade o respeito ao papel do professor permanece resguardado, mesmo quando os que o detém não correspondem às expectativas.
Esta minha hipótese é passível de comprovação, basta chegar a qualquer ambiente e discutir a questão e verá que a despeito de tudo o professor goza de consideração. A perda de status é apenas financeira e mesmo vivendo em uma sociedade na qual as pessoas são medidas pelo valor quantitativo das suas posses, ainda assim, o professor goza de respeito.
Curiosamente o desrespeito vem muitas vezes do Estado, que devia representar os valores que a população tem. Ao contrário do que é dito existe muita verba para a educação. A questão não é quantitativa, mas qualitativa: se gasta mal. E se gasta mal em grande parte porque o professor é pouco considerado neste processo.
A última moda nas soluções pirotécnicas de governos para demonstrarem sua preocupação com a educação é a distribuição de uniforme e material escolar, ao lado das já reincidentes grandes estruturas. A população acaba sendo iludida ou subornada por estas iniciativas, mas mesmo estes segmentos podem ser convencidos com facilidade de que nada disto tem a ver com a educação que precisamos.
Por fim acho que há outro elemento nesta crise que precisa ser enfrentado pelo conjunto da sociedade, porque é um elemento cultural. A escola tinha mais valor quando se imagina que o acesso à educação permitiria alguma ascensão social, o chamado capital humano. É em grande parte neste sentido que o traficante e o jogador de futebol são antíteses do professor porque demonstram a inutilidade financeira da educação.
Em plena era da informação, na qual o conhecimento é matéria prima fundamental, não se convence a sociedade a sonhar que a escola pode representar uma estratégia de evolução pessoal no único valor que sobrevive – que é o financeiro. Certamente há algo de muito errado em todas as estratégias, mesmo aquelas que não são baseadas em ideais mais elevados.
