Pessoas e livros
Uma das distopias menos conhecidas é a escrita por Ray Bradbury, Fahrenheit 451, salvo talvez pela referência parafraseada pro Michael Moore. Me soa estranha a referência do diretor, afinal ele é um dos porta-vozes deste estilo politicamente correto que não deixa de ser uma forma de também aniquilar os livros e o pensamento.
Penso que talvez por isto mesmo a distopia de Bradbury não seja popular como outras, em especial os dois clássicos do gênero – Admirável Mundo Novo, de Huxley, e 1984, de Orwell. Afinal ela fala sobre a tentativa de qualquer regime de impedir o acesso aos livros, pecado que todo totalitarismo de esquerda ou direita comete, porque só podem sobreviver se houver uma única vontade. Mais talvez dos totalitarismos de esquerda, porque os de direita simplesmente mandam as mentes livres para a morte e queimam seus livros, enquanto os de esquerda tentam varrer sua memória, caluniá-lo, condenar não só o autor à morte como sua obra ao descrédito como tem sido feito contra o próprio Orwell.
No texto a pose de livros é proibida e a principal função dos bombeiros, um dos quais é o protagonista, é queima-los na temperatura que dá nome a distopia. Para garantir a sobrevivência das obras uma organização secreta tem como militantes pessoas-livro, que os decoram e repetem para que o conhecimento não seja destruído.
Tenho este hábito de às vezes associar as pessoas a livros. Acho que eu o adquiri de um dos muitos professores e poucos mestres que eu tive, ainda que sempre tenha odiado o livro que ele me mandava ler – A Montanha Mágica de Mann, um dos poucos livros que li com sofreguidão e não em um rompante. Só poso concluir que ele sabia que um dia eu perderia as certezas e respostas que tinha na época.
Escrever é de todas as artes talvez a mais simples e a mais complexa. Não faria sentido, por exemplo, perguntar como os escritores pintam, dançam, fotografam ou dirigem, mas é comum e até natural, que aqueles que se dedicam a estas outras artes também escrevam. Às vezes, penso aqui particularmente no Gauguin de Antes e Depois, parece haver um certo estilo próprio de escrever de quem vive neste mundo das artes plásticas, ainda que não consiga pensar em uma teoria geral sobre o assunto ou em alguma regra que organize melhor este raciocínio.
Vejo, contudo, que se assemelha ao método dos poetas – e aqui pensando principalmente no Livro do desassossego de Pessoa – com algo de desconexo, muitas rupturas, anacolutos e sobretudo hipérboles que talvez horrorizassem aqueles que só escrevem prosa, mas que não soam gritantes no textos deles. As inconsistências, falta de coesão e coerência às vezes, parecem vir daqueles que conseguem enxergar no mundo o detalhe, o retrato, a imagem, a impressão.
Mas, afinal, deve estar pensando o leitor, o que tem isto a ver com o começo da história e o livro de Bradbury.
É simples, aquele estilo que talvez faça sentido nos artistas que escrevem vai se generalizando por aí, talvez proque estamos nos tornando uma sociedade muito visual, de imagens e não mais de palavras. Não é algo obrigatoriamente ruim, como nada é, mas pode vir a ser na medida em que se imponha como lei, como regra, vire um pequeno totalitarismo do fragmentário. Também é ruim quando não é algo autêntico, mas apenas uma forma de esconder uma cultura de almanaque, um verniz de civilização, por detrás de referências esparsas.
Precisamos, desde já, de Homens-livros. Toda regra é sempre uma prisão!
