Política e poesia: linguagens opostas
Em vários posts anteriores mencionei o fato de julgar que a poesia e a política pertencem a linguagens distintas, portanto qualquer mistura de ambos não me agrada. Evidente que cada um tem o direito de gostar daquilo que quiser, mas me senti na necessidade de justificar esta posição tendo em vista alguns comentários que recebi. É evidente que há uma enorme diferença com a litaratura em prosa, na ual não só o processo racional é uma parte importante da linguagem em si como também é possível separar e distinguir a qualidade do trabalho em si das preocupações políticas do autor, como tentei fazer ontem com Maalouf.
A meta da política, ao menos da verdadeira, é o convencer, enquanto a da poesia é impressionar. Uma poesia não pode ser feita com argumentos, sob o risco de na melhor das hipóteses ser muito medíocre – como a minha, digo de passagem, que é apenas um exercício de linguagem. Em paralelo o discurso político não pode ser feito de impressões e sentimentos, sob o risco de na melhor das hipóteses ser este oposto da política que é a demagogia.
É evidente, como disse Orwell, que escrever é sempre um ato político, mesmo quando parece não ser e ainda mais quando nega que seja. Mas é preciso distinguir aqui uma série de coisas. A primeira é que uma poesia não pode ser julgada pela nobreza dos temas pelos quais ela fala tanto como por qualquer outro fator externo a ela própria, a segunda que é próprio da linguagem da poesia que a avaliação se dê sobre o olhar do autor sobre o objeto, não sobre o objeto em si, tampouco sobre as motivações não estéticas ou emotivas vinculadas a este olhar.
Não é, assim, por falar das pobres crianças carentes, da libertação dos escravos, dos direitos da mulher, das belezas do amor ou de qualquer outro tema por mais relevante que possa ser que uma tentativa de poema deixa de ser medíocre. Há, por sinal, uma enorme chance de que ele seja infeliz na medida em que tente ser didático, porque, como disse acima, a função da poesia é impressionar, não ensinar, processo que está diretamente ligado – ou deveria estar – ao processo racional.
Traço um paralelo entre a poesia política e aquela que é uma das grandes matrizes de toda poesia moderna, a poesia mística. No caso da última, embora não deixe de ter um certo caráter que poderia ser rotulado de “didático”, a meta é justamente ser capaz de contornar os processos mentais, falar muito além dos nossos sentidos, dizer coisas que não podem ser compreendidas com a nossa razão e os nossos valores, visto que tem a intenção de pertencer a um outro mundo diverso do nosso. Há aqui uma perfeita identidade de métodos e linguagem porque o que se tenta dizer pertence, ou ao menos tenta pertencer, ao mesmo universo de sensações daquilo que é dito.
Já no campo da política ambos não apenas não pertence ao mesmo conjunto simbólico, como pertence a opostos. É evidente que há uma dose de paixão, uma forte carga emotiva que faz alguém dedicar-se a política, enfrentar dificuldades, lutar pelos seus ideais, morrer e até matar por eles. Mas no universo da verdadeira política não há espaço para a emoção enquanto linguagem, até porque uma discussão verdadeiramente política, e dentre as múltiplas definições de política a disposição eu escolheria aquela que diz que é o processo de tomada de decisão sobre assuntos públicos baseada estritamente na persuasão, só pode ser travada quando as partes que debatem estabelecem a razão como linguagem e a persuasão como método.
Se duas pessoas tem posições distintas mas não estão dispostas a debater até as diferenças até que ambos estejam convencidos da verdade não se tem um verdadeiro consenso. Quando há uma negociação na qual a única coisa que se leva em conta é a força de cada lado não se tem um verdadeiro consenso, se tem apenas um ponto de equilíbrio instável, sujeito ás variações e acasos dos momentos. No meu entendimento isto não é política, tanto como não é política todas estas campanhas eleitorais cuja intenção é causar uma imagem favorável do candidato, ao invés de debater a sério e demonstrar que ele é a pessoa mais qualificada para exercer determinada função.
Assim me parece curioso, mas facilmente explicável, que a “poesia política”que me parece aceitável é justamente aquela que não é engajada, que não tem a intenção de defender esta ou aquela idéia, que não corre o risco de tornar-se um santinho distribuído na boca de urna. Enfim uma poesia que sem deixar de ser poesia – portanto sem a preocupação de convencer e argumentar – é capaz de falar sobre as convicções políticas, denunciar fatos, descobrir vocações políticas utilizando a linguagem da poesia, ou seja, falando diretamente ao espírito sem ter de passar pelos sentidos. Não tenho conhecimento para avaliar, mas julgo que raciocínio similar é válido também para as artes plásticas.
