Sampa
“A Cidade parece ser o local onde se torna possível a explicitação das vocações mais diversas e, portanto, a especialização mais particular através da comunicação e da colaboração. A especialização, por sua vez, leva à dependência de uma atividade em relação às outras e, breve, à limitação da autonomia. Daí a necessidade de reaparecer, distinguir-se e recolocar um significado e um aspecto à própria individualidade. Aqui nascem, também a competição e o conflito. Cooperação e luta, envolvimento e isolamento chocam-se em uma intensa mobilidade que é também movimento, ir adiante, descobrir-se a si próprio e ao mundo, mudá-los.” (Roberto Guiducci, A Cidade dos Cidadãos)
2010 para mim foi o “Ano do Plano Diretor”, na minha mania de nomear meus anos. Passei o ano discutindo sobre desenvolvimento urbano, incontáveis reuniões de todo tipo, milhares de páginas de relatórios para serem mastigados pela análise estatística para transformarem-se em um uma folha apontando tendências, conversas e mais conversas com sábios, tolos e loucos aprendendo sempre algo em cada uma, dezenas de livros de todas as tendências e visões para tentar compreender o assunto, dos mais conservadores aos mais radicais, mapas e mais mapas quase tão repletos de cores e legendas quanto as pessoas que moram naquele território representado. Emfim, um turbilhão de informação a ser processada, digerida, condensada em conceitos e transformada em ferramenta para a ação.
Para mim foi uma redescoberta de mim mesmo, uma volta à batalha com ânimo guerreiro que não tinha há tempos e a paciência que não tinha nas batalhas anteriores. Felizmente no início tinha a ignorância fundamental que a tarefa era grande e complexa demais pra mim, isto fez com que a aceitasse e me empenhasse em realizá-la. Magnífica benção é a ignorância.
Dos desdobramentos da tarefa abriram-se tantas e tantas batalhas paralelas, muitas trincheiras a fincar o pé, muitos outros campos a avançar. No saldo final com certeza foram tantas, tão relevantes e profundas, as vitórias que as derrotas puderam ser esquecidas numa luta tão feroz contra as intricadas teias que envolvem a cidade e seus interesses.
Queria ter escrito ontem, aniversário de São Paulo, mas mais uma vez não houve tempo e tranquilidade para exprimir aquela que é a meu ver, doentiamente avesso a festas e comemorações, a única homenagem possível a quem faz aniversário, contribuir para a reflexão de balanço que deve marcar a data.
Há algo de brilhante no cinza de São Paulo que escapa aos olhos de quem passa apressado e atento mais a si mesmo que à sua volta. Há uma beleza difícil de definir em meio a esta fuligem escura que aprece cobrir tudo e transformar o que era novo em vetusto em poucos meses. Leitor apaixonado de Thoreau minha alma também se divide entre andar a pé pela floresta e olhar pela janela do gebinete esta agitação de mil tons de cinza se mexendo caoticamente pela janela.
Tudo que li, conversei, discuti, falei, vi sobre a cidade foram sempre de alguma utilidade e prazer. Mas se eu precisasse selecionar uma cosia que mais me marcou foi o livro do urbanista italiano que está citado na epígrafe. Os urbanistas profissionais ou amadores quase sempre me dão a impressão de que no fundo odeiam a cidade, querem transformá-la em arremedo de aldeia gigante, resgatar uma vida comunitária que não tem mais como existir proque os pressupostos dela deixaram de existir.
Guiducci, pelo contrário, me pareceu o único nesta balbúrdia toda que ama mesmo, lá no fundo, a cidade. Não quer domá-la ou demoli-la, mas sim libertar seu potencial. Só ele parece ter compreendido o que compreenderam todos os jovens talentosos desde a Babilônia da antiguidade às atuais, que a cidade é a panela de água fervente – para usar a imagem de Sorokin – e o local onde as cosias acontecem.
Parece impossível amar Sampa com seus congestionamentos, transportes lotados, poluições, multidões, sua feíura das camadas de progresso que vão se sobrepondo uma a outra tornando velho muito rapidamente o que está por baixo. Mas raspe-se o concreto e se poderá enxergar a beleza e riqueza de toda esta cooperação e conflito e se pdoerá enxergar que há nela um sentido estético que escapa a tantos que querem mudá-la sem enxergar sua essência e com isto só conseguem ser “cosméticos” porque só enxergam o “bonitinho” e nunca realmente o belo – “O silêncio, a solidão, o tédio e a repetição levam a uma sensação de estática e de morte ainda mais insuportáveis que uma existência vivida na tensão, na febre de construir, na fictícia ilusão de conservar a vida na pedra que caracterizam a vida na cidade”, comenta Guiducci sobre as propostas falidas de mudar a vida nas grandes cidades”.
A “alma” da cidade não está nos prédios, no concreto, onde costumam procurá-la. Está naquela multidão que se acotovela no movimento alucinado, lutando contra a natureza – não só a natureza externa, aquela dentro de nós mesmos, nos nossos genes, que nos faz desejar a vida tranquila em um recanto seguro com um pequeno grupo de conhecidos. Muitas vezes já disse que as grandes cidades não são locais propícios a vida humana, quem vive nelas honra ser descendente daquele primata que enxergou oportunidades em desafiar a animalidade, enfim, os paulistanos são a vanguarda da humanidade.
