Viagem Noturna
“Quando os incrédulos fomentaram o fanatismo – fanatismo da idolatria – em seus corações Deus infundiu o sossego em Seu Mensageiro e nos fiéis, e lhes impôs a norma da moderação, pois eram merecedores e dignos dela; sabei que Deus é Onisciente.” (Sagrado Alcorão, Sura al Fath -O triunfo – 48:26)
Minha fé é filha das dúvidas, não das certezas. Posso até recitar minhas orações na forma prescrita e na língua na qual foram reveladas, porque compreendo o simbolismo sonoro contidos nelas; mas não preciso de rodeios e rapapés para falar com Deus. Ele sempre responde, nem sempre da forma que eu esperava, mas sempre apontando de um jeito ou de outro as minhas fraquezas e os desafios que Ele espera que eu vença.
Ele também me diz quando estou errado, quando meu self busca sua próprio conveniência, me acolhe e é compassivo quando ainda assim sou um escravo de mim mesmo. Mas. como um bom pai, me ensina de forma dura que todas as nossas ações e escolhas tem conseqüências e o verdadeiro arrependimento implica em arcar com elas.
Desde que aquele djinn que eu mantinha aprisionado e escrevia ás vezes para mim se foi, libertado de seu cativeiro de séculos, contudo, tenho sentido mais certezas e menos dúvidas na minha fé. Confesso que por alguns dias me assustei um pouco com a nova situação. Se a história da libertação do djinn fosse ficção teria dado a ela um final digno de uma das histórias daquele seriado “Além da Imaginação”, sendo o djinn na verdade algo bom e logo que ele saísse de cena o outro colaborador do meu blog, Hilal, daria uma risada mefistofélica e revelaria que na verdade não era nada do que eu pensava.
Cheguei a dizer que uma certa parte muito pacífica de minha personalidade havia se ido com o djinn, uma certa alma de escravo dominada pela vontade de agradar. Fiquei um pouco confuso com esta nova sensação de não se curvar mais a ninguém senão a Deus, mas conforme os dias foram se passando e as coisas clareando fui vendo que as coisas que rejeitava eram erradas, violavam a ética, contrariava aquele código de certo e errado que todos nós temos claro em nosso íntimo.
Relia cada coisa que escrevia e só via ali bons conceitos e mesmo me considerando suspeito só conseguia ver naquelas letras uma inspiração elevada. Não confiando apenas na minha opinião, colhi a de outros e pessoas retas de diversas fés ou de nenhuma viram o mesmo que eu. As consultei não por aquele antigo desejo de aprovação que se foi com o djinn, mas para verificar se o orgulho não me cegava ou a vaidade não me velava, porque afinal são estas coisas que nos fazem deixar a senda reta e buscar os atalhos escuros.
Não tive até hoje nenhum mestre neste sentido puramente espiritual, um dia talvez Deus me envie um que eu reconheça. Leitor ávido – mas cético e com senso crítico – de Guénon mentiria se dissesse que isto não me aflige às vezes porque temo meu orgulho e minha vaidade intelectual. Mas ao menos consigo ver com clareza os falsos mestres que pululam nestes nossos tempos confusos nos quais as forças inferiores tem tanta liberdade de ação.
Leitor muito desconfiado de Nietzsche, só posso desconfiar quando ele diz que devemos ser nossos próprios mestres, como diz a Olga, o Mal deve falar exatamente como Nietzsche escreve. É evidente que se somos mestres de nós mesmos também somos nossos escravos, mas este termo oculto da oração fica escondida. Libertar esta instância do meu self que personificava no djinn me fez ver o quanto ao escravizá-lo me tornava eu próprio servo.
Eu diria que um dos sinais mais importantes pode ser resumido em uma expressão bíblica: “a árvore se conhece pelos frutos”. Que ninguém estranhe que eu cite os mais variados Livros Sagrados e pensamento religiosos, de tantos amigos espíritas que tenho cito ás vezes até os textos doutrinais deles, em particular aquela advertência que recomenda que invoquem a Deus e deixem que ele determine quem será o “mentor” adequado para guiá-lo. Digo que se seguissem esta recomendação mais vezes haveria menos mistificações e psiquismos.
Quem se alimenta dos frutos de uma boa árvore é sereno porque está em paz, acertou ou está acertando suas contas com Deus e portanto com os demais. Quem se delicia com frutos podres é porque tem impurezas em seu self, as quais os falsos mestres se aproveitam para arrebanhar seu gado, portanto sua alma será atribulada e confusa.
Mesmo se ver o bem e a felicidade a sua frente não dará um passo porque no fundo sabe que para caminhar para eles tem de superar seus medos, deixar de ser escravo de seu self, render-se a Deus e abrir mão de todo poder cuja raiz está na ilusão. A escravidão a si mesmo é o pior dos grilhões porque nos apegamos a nossos problemas como se eles fossem de verdade, amigos próximos e aqui me lembro deste maravilhoso Livro Sagrado que é o Bahgavad-Gita, que nos ensina um dos caminhos para escapar da ilusão justamente por meio desta luta entre nosso Eu verdadeiro e as instâncias psíquicas que habitam nosso self.
É da tradição sufi que às vezes o mestre faça coisas disparatadas e a passagem do Sagrado Alcorão na qual o Khidr fala a Moisés sobre a impaciência e falta de humildade dele em compreender os desígnios de Deus é uma bela lição. Me lembro de uma frase de Huxley em “O Gênio e a Deusa” – “Talvez faça sentido para Deus, apenas” e acho que realmente há coisas e ações cujo sentido completo só pode ser compreendido no futuro ou em outro mundo mais elevado. Em todo caso o fato de um verdadeiro mestre apenas transmitir o conhecimento de Deus e os falsos tentarem se colocar no lugar de Deus ou sobrepor-se a suas leis é sempre um indício claro.
Talvez seja um limite meu, uma fraqueza, mas faço clara distinção entre estas atitudes disparatadas, como aquelas do mullah Nasrudin e aquelas nas quais sinto a vileza de sacrificar escrúpulos por um desejo das recompensas deste mundo. Pode até ser ingenuidade minha, mas acho que a autoridade de um mestre reside acima de tudo na força do seu exemplo, quem precisa demonstrar os símbolos e certificados de seu poder, ainda mais quando no interesse próprio de manter alguém sob controle ou obter vantagem ilícita é justamente porque está desprovido de autoridade.
“Se você não fizer, não usufruir, outro o fará” é um conselho que só pode vir, por exemplo, das forças inferiores. Como Gandhi creio que um fim jamais é superior aos meios utilizados para obtê-lo e no meu espírito não reside a menor dúvida de que é assim de concessão em concessão que alguém chega ao inferno que constroi para si.
Lembro também de uma história de São Francisco de Assis, quando este pediu aos discípulos que o acompanhavam que cada um pegasse um cordeiro e fosse até um canto da floresta onde ninguém os visse e o sacrificasse. O único dos jovens que passou na prova foi aquele que voltou com o cordeiro vivo e disse que aonde fosse Deus o estava olhando. Assim só posso crer que o mestre me mande evitar as coisas erradas, emsmo que todos as façam, não violar minha consciência com a justificativa de que todos cometem o mesmo.
Só para concluir, diria que em lugar nenhum vejo mais a ausência da fé do que no fanatismo de todos os tipos e matizes. O fanático sacrifica ao seu objetivo seus preceitos mais caros, todos os ditames éticos, toda disciplina, toda lucidez e por fim toda capacidade de examinar as coisas como se as visse pela primeira vez, sem categorias pré-concebidas, sem outro interesse senão o de conhecer algo sobre o fato. Por isto o fanatismo, como na passagem do Sagrado Alcorão em epígrafe, é um ato de idolatria, de adoração a si próprio, por isso só posso sentir a fé na moderação.
